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segunda-feira 18 dezembro 2017
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14bis: A Ultra maratona Aquática  

 A Maior e mais tradicional Travessia Aquática do Brasil

Em 2016, foi o primeiro ano que a prova foi organizada pela empresa K10, que fizeram um ótimo trabalho com a estrutura que até então era inexistente, e conseguiram transformar a prova em um evento com até Food Trucks na chegada.
A prova tem inicio no forte São João em Bertioga, e sem muita cerimônia os atletas chegam as 6h30 com o kit já retirado no forte, alinham os barcos e caiaques em uma estreita camada de areia, pegam o chip e tem os números marcados nos bracos, se lambuzam de vaselina e protetor, cantam o hino nacional e vão para a água esperar a largada as 8h00.
A prova conta em média com 250 atletas por etapa que tem um tempo limite de 10h para completar a prova sem auxílio de nenhuma roupa de borracha ou neoprene e contam com uma grande equipe de segurança ao longo do percurso
Neste momento você encontra diversas figuras com quem troca experiencias, e dicas de última hora vindo dos mais experientes. Alguns já fizeram a prova mais de 10 vezes e ficam tão ansiosos quanto os estreantes. Minha sensação no momento era: ok, só de me inscrever eu já estou orgulhoso, treinei o melhor que pude e agora farei o melhor possível.
Com todos os atletas na água, a largada é dada com um tiro de canhão ao melhor estilo Kona, mas não vemos aquela correria típica de prova de triathlon em que um monte de pangaré se mata pra fazer a 200m forte e depois se arrasta 90% do trajeto. O pessoal entra na boa, afinal serão 24.000m de pura diversão.
Os barqueiros largam a alguns metros dos atletas e só podem se aproximar de seus respectivos nadadores após aproximadamente 1000m de prova para evitar atingir algum competidor na largada apertada. Nesta hora cabe ao barqueiro te localizar com base na sunga, touca, até algumas bexigas que alguns nadadores amarram na parte de trás do óculos para melhor visualização.
A maré costuma mudar de prova para a prova, mas ela respeita o padrão abaixo:
Das 6h00 ate as 12h00 a maré enche e empurra a água em direção ao centro do canal;
A partir das 12h00 a maré esvazia e empurra a água para fora do canal;
Os primeiros 1500m são de maré contra por conta da saída do canal e da balsa.
Um atleta comum nada nessa prova 30 minutos contra a correnteza, depois 3h00 a favor da correnteza, depois 3h30 contra a correnteza, e o restante a favor. Porém isso é apenas teórico pois o vento e chuva influenciam também na correnteza, e a foi o que aconteceu nesta etapa em que a correnteza do meio até o final da prova foi contra. Meu ritmo alvo para esta prova era 2;00min a cada 100m e meu paramêtro era a percepção de esforço e não o ritmo em si, pois sabia que ele iria variar muito com a correnteza.
Logo com 1000m de prova você percebe que os grupos de atletas se separam, os lideres já abrem centenas de metros e servem como guia para todos os demais atletas que vem atrás. O mínimo que seu barqueiro precisam fazer é verificar se os grupos na sua frente estão tangenciando as curvas corretamente e aproveitando ou fugindo das correntes. A explicação básica de como aproveitar a corrente é: se ela estiver a favor, nade um pouco mais ao centro do canal e se estiver contra fuja para as margens onde a influência é menor. Fazendo isso e tangenciando corretamente você evita esforço e centenas de metros a mais nadados.
Ainda sobre a correnteza, ela influencia muito!!! Os primeiros 10.000 com minha percepção de esforço de 2;00min a cada 100m eu estava com ritmo médio de 1:35, mas a alegria de estar melhor do que o esperado me fez pensar que se pra ajudar ela era forte, pra segurar seria um GRANDE problema.
Até esse momento estava tudo indo muito bem apesar da chuva, fazendo minhas paradinhas a cada 25 minutos para tomar água e a cada 50 minutos para suplementar e alimentar.
Mas não se pode prever tudo em uma ultra maratona, e eu havia me esquecido das águas vivas. Muitas, de todos tamanhos, de todos humores e por toda a prova! Até então eu não tinha me deparado com nenhuma, até que em menos de 2 minutos fui atingido no rosto, pescoço, peito e perna. Segue o link de uma notícia a respeito pra provar que não é mimimi.
Cena meramente ilustrativa do momento em que elas entraram em cena.
Em poucos minutos a ardência começou, e assim como todos ao nosso redor, procurávamos alguém com vinagre para o alívio da dor. Como eu não estava disposto a passar mais horas nadando com tanta dor, a única solução foi a mais nojenta possível: fazer xixi na garrafinha e esfregar nos locais onde ardia. Foi bem ruim, mas foi necessário e deixaria o Bear Grills orgulhoso. Com aproximadamente 3h30 de prova, o tempo começou a piorar. O vento aumentou, a chuva apertou, a temperatura caiu e a marola e correnteza (contra) aumentaram, condições ruins para quem nada e quem rema.
O difícil desta prova é que você tem um contato muito reduzido com o ambiente externo e a única comunicação que você tem é com seu barqueiro quando tem que parar pra conversar ou fazer apenas sinais com as mãos, não havia ninguém ao redor torcendo e te motivando. Por conta disso o psicológico tem que estar muito forte pra manter a cabeça ocupada enquanto você foca em manter o ritmo por horas e horas: eu cantei, criei discussões filosóficas na minha cabeça, lembrei de diversas histórias, fiz planos de viagens, listas de compras, contei cores das tocas dos nadadores e tudo para o tempo passar enquanto tudo que eu enxergava era água barrenta e chuva nos óculos.
Os mais experientes falam que no finalzinho da prova você enxerga a ponte que é por onde passa a estrada, e a partir dali já é a chegada… é uma mentira. Enxerga-se a ponte de longe no km 19, até chegar nela são longos 3km e depois mais 2km que você fica pensando que na próxima árvore é a chegada e na verdade não é.
No final da prova o corpo já está inteiro quebrado e o corpo saturado de ficar na água salgada por tanto tempo, mas os movimentos vão no automático até o final. O barqueiro nessa hora tem que motivar e muito… a Paula batia palmas e gritava pra mim a cada respirada minha e remava ainda (não entendi até agora como ela fazia isso com apenas 2 braços, fez transmissões ao vivo no facebook e esvaziava o caiaque que encheu de água da chuva).
A chegada na rampa da base aérea é inesquecível e emocionante, o sentimento é realmente incrível indiferente do seu tempo de prova ou quantidade de participações na 14bis. Você é recebido por um oficial que logo te encaminha para uma tenda onde é alimentado e recebe a medalha, e é liberado para o galpão onde toda a estrutura do pós-prova fica, inclusive os food trucks.
Nessa hora você percebe o quão insano foi o desafio e que não é o único maluco no pedaço e a glória é maior do que as dores (e olha que são muitas dores).
A organização e os atletas concordaram que esta etapa foi muito dífícil e os tempos gerais foram mais altos do que os de outras etapas já realizadas por grandes atletas, mas mesmo assim consegui fechar muito próximo do que previa e fiquei ainda mais orgulhoso em saber que fui na colocação geral 126 de 223 atletas.
Abaixo segue um print e o link do meu trajeto no Garmin Connect .
Mais um desafio vencido e já miramos outros, todos serão compartilhados com outros malucos ou futuros malucos. Para ver o post sobre como foi a preparação nos meses que antecederam a 14bis, clique aqui.



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