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segunda-feira 18 dezembro 2017
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EPO – a sedução do doping

Visto que nos últimos dias tivemos uma grande movimentação no mundo do triathlon com a descoberta de um exame anti-doping ter dado positivo para a triatleta Ariane Monticeli, grandes discussões morais e específicas sobre o assunto estão acontecendo.

Juntamos nessa matéria algumas curiosidades e fatos sobre o doping, abordando principalmente o EPO, a substância usada pela triatleta.

A história do doping esportivo

No mundo do esporte, ligamos o doping a grandes revelações bombásticas no ciclismo internacional, como o escândalo da equipe Festina no final dos anos 90 e claro, a Lance Armstrong e a quase toda sua equipe e concorrentes na época.

Na primeira metade do século XIX, ciclistas usavam estimulantes que afetavam o cérebro (cocaína e anfetamina), reduzindo a sensação de fadiga. Nos anos 70, novas drogas, como esteroides e corticoides focados nos músculos corporais e tecidos conjuntivos, acrescentavam força e reduziam o tempo de recuperação. Mas a verdadeira descoberta no doping aconteceu quando o foco mudou para o sangue – principalmente, no aumento de sua capacidade de transportar oxigênio.

A eritropoetina, ou EPO, é um hormônio que já existe naturalmente, e que estimula os rins a produzirem mais glóbulos vermelhos. A versão sintética, comercialmente desenvolvida em meados dos anos 80 para auxiliar pacientes de diálise e câncer que sofriam de anemia, foi rapidamente adorada por atletas – e por boas razões.

 

Um estudo de 13 semanas com ciclistas amadores no European Journal of Applied Physiology mostra que a EPO aumentou a potência de pico em 12 a 15%, e aumentou a resistência (tempo pedalando a 80% da capacidade máxima) em 80%. O Dr. Ross Tucker, estimou que para atletas de nível mundial, a EPO melhora o desempenho em cerca de 5%.

Um dos primeiros riscos apresentados pela EPO foi o aumento da possibilidade de óbito. Acredita-se que a EPO esteja por trás de mortes de ciclistas belgas e holandeses nos anos 80 e 90: seus corações pararam quando não mais aguentavam bombear o sangue engrossado pela EPO. Há histórias de que atletas ajustavam seus despertadores para o meio da noite, para que pudessem despertar e fazer um pouco de ginástica, aumentando a pulsação e “afinando” o sangue.

 

Como detectar o EPO

Por muitos anos a WADA (Agência Mundial Anti-Doping) teve problemas em testar a substância por não ter conseguido achar um anticorpo que reagisse apenas ao EPO sintético, já que a eritropoetina é produzido naturalmente pelo corpo. Agora esse processo já existe e é testado com facilidade.

Portanto, a melhor maneira de controle por muito tempo foi a contagem de hematócritos, que é o volume percentual de hemácias presentes em uma amostra de sangue total.  Caso um atleta precisasse fazer um exame surpresa era possível abaixar o hematócrito com um saco de soro fisiológico ou simplesmente tomando litros de água com sais efervescentes.

A outra maneira de conseguir aumentar seus hematócritos que não usando EPO são: Da maneira legal, treinando em grandes altitudes, pois quando o corpo é exposto a uma quantidade menor de oxigênio, naturalmente produzimos mais hemácias para transportar  de forma mais eficiente o oxigênio para o corpo.

E há outra maneira ilegal além do EPO, transfusão sanguínea, que envolve remover e estocar cerca de 1L do seu próprio sangue, e injetá-lo novamente algumas semanas depois. Esse método é extremamente perigoso, pois envolve saber estocar o sangue de maneira correta, este, se contaminado pode causar muito mal estar e problemas de saúde ao atleta, além da redução da qualidade de treinamento após a retirada do sangue.

Qual o efeito?

O efeito do EPO é que não existe efeito. Não parece que se está usando alguma coisa, não como a testosterona ou GH, hormônios para crescimento e ganho de força e massa muscular. Sente-se saudável, normal, forte. Fica-se com mais coloração nas bochechas e melhora o humor. A substância instrui seus rins a criarem mais glóbulos vermelhos, logo, mais milhões estão enchendo suas veias, carregando oxigênio para seus músculos. Todo o resto do seu corpo fica igual.

O limite conhecido pelo seu corpo é empurrado um pouco mais longe – não só um pouco. A EPO concede a habilidade de sofrer mais, de se esforçar mais e por mais tempo.

 

Efeito pós-prova

Já se pode concluir que quanto mais longa a prova mais o doping ajuda. Se não houver qualquer tratamento de EPO e o atleta estiver limpo, durante 3 semanas seu rendimento em treinos ou numa prova cairá naturalmente. A cada 1% de queda no hematócrito, origina um ponto percentual de queda na força – falando da potência estabelecida nos pedais.

Quando o EPO não funciona

Num universo fictício, em que todos usam EPO, não estariam todos em pé de igualdade? A resposta é não, porque cada droga afeta diferentemente pessoas distintas. Estudos mostram que algumas pessoas respondem mais à EPO do que outras, e ainda alguns respondem mais que outros ao aumento no treinamento possibilitado pela EPO. Por consequência, tem-se o fato de que a EPO muda os limites de desempenho da fisiologia central do corpo (quanto o coração bombeia) para a fisiologia periférica (quão rápido as enzimas dos músculos podem absorver oxigênio).

 

A pressão por trás dos atletas

No caso de muitos atletas, principalmente os que gostamos e usamos como exemplos, sabemos da pressão que se sofre na busca pelo melhor rendimento. Porém, muitos atletas conseguiram no passado marcas excepcionais, sem sequer terem usado as tecnologias disponíveis hoje, muito menos com a ajuda de substâncias.

Apesar disso, não foge aos nossos olhos como os tempos no triathlon estão cada vez mais rápidos, tanto entre os amadores, quanto entre os profissionais. Um bom comparativo disso é que de 1980 a 1990, a média de velocidade do Tour de France era 37,5km/h, de 1995 a 2005, a velocidade aumentou para 41,6km/h, traduzindo isso em força é um aprimoramento de 22%.

Recordes de tempo vem sendo batidos ininterruptamente, cada vez mais amadores estão chegando em provas de Ironman abaixo da marca das 9h. Quando se está praticando o esporte que ama, e se vê esse tipo de tempos insanos acontecendo, nossa reação é fechar os olhos, é acreditar na ética esportiva. Nos sentimos anjos imaculados, aqueles que não utilizam substancias proibidas e jogam de acordo com as regras.

Mas quando voltamos os olhos novamente aos profissionais, como deve ser ver o prêmio, o título e a medalha que você tanto suou para conquistar, sendo passado para alguém que cortou caminho? Junto ao lugar no pódio, muitos atletas dão adeus também a marcas e empresas que poderiam dar apoio e patrocínio.

Assim como a UCI – União Ciclística Internacional, fechava os olhos para o doping entre os ciclistas pró-tour, podemos pensar que as agências reguladoras do triathlon (brasileiro e mundial), também possam fazer o mesmo. Existe muito dinheiro envolvido em competições, e não é do interesse de grandes empresas de terem seus heróis desmascarados.

Uma coisa que escândalos de doping no mundo do ciclismo nos mostraram é que ninguém se dopa sozinho, e a dúvida fica: Se formos colocar os eventos atuais nos mesmos moldes de esquemas de doping do passado, teremos treinadores, médicos, clubes e os chefes das empresas reguladoras, envolvidos.

O grande álibi de Lance Armstrong sempre foi seus próprios exames anti-doping – foram 25 anos de carreira sem qualquer pico de desempenho suspeito e com mais de 500 testes de doping, sem nunca ter falhado em nenhum deles. Desses, os que ele mesmo com a equipe não conseguiram alterar, o restante foi acobertado pela UCI ou alterado pelos médicos subornados dos laboratórios da WADA, da mesma agência que deveria fazer o controle e garantir o esporte limpo.

Cabe a todos os atletas limpos e éticos, disseminar o amor ao esporte, a competição saudável e ir contra a luta de egos que o triathlon se tornou. Cobrando de quem media, quem patrocina e quem participa das provas, podemos ter esperança num futuro com o esporte justo e limpo.

 

*Todos os dados e fatos dessa matéria foram retirados do livro “A Corrida Secreta de Lance Armstrong”, que conta com entrevistas e depoimentos de Tyler Hamilton e outros companheiros de equipe do ex-atleta.



4 thoughts on “EPO – a sedução do doping

    1. Espaço Tri Mensagem autor

      Obrigada Aline! Qualquer sugestão ou pedido sobre algum tema, pode nos avisar e buscaremos atender!
      Abraço, Espaço Tri

      responder

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