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segunda-feira 18 dezembro 2017
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Lesões – Quando o corpo fala  

 Respeitar o corpo para competir para sempre

Qual o maior sonho da vida de um atleta? Ganhar aquela competição? Ficar mais rápido? Mais forte? Tudo isso está na mente de um competidor, mas o desejo número um é sempre conquistar tudo isso numa longa carreira sem lesões.

Existem dois tipos de lesões, a que acontece durante um treino ou prova, e a que acontece durante tarefas diárias. Durante longos treinos sempre prestamos atenção na nossa postura, passada, irregularidades do solo, tinta na pista – causador de muitos tombos de bike já que a maioria das tintas fica com a textura de sabão quanto molhada. Mas e durante nosso tempo off? Nos momentos de descanso relaxamos a musculatura e também abaixamos a guarda para nossa postura e movimentos, e é ai que acontecem as lesões mais comuns.

Tenho três exemplos práticos ao meu redor. Minha sogra que joga tênis à 40 anos precisou fazer uma cirurgia no joelho por conta de uma lesão, a primeira impressão é que foi causada por anos correndo dentro das quadras e pulando para pegar as bolinhas mais impossíveis, mas a lesão no joelho foi causada em um dia comum, numa festinha infantil em algum lugar, que tinha uma cama elástica e ela parecia divertida.

Exemplo número dois, meu namorado estava próximo a casa dele quando o céu fechou e começou a chover, para chegar mais rápido em sua casa, ele deu uma corridinha para atravessar a rua, pisou em falso e passou os próximos meses podendo apenas fazer elíptico, já que não podia correr mais por conta de uma inflamação no tendão fibular do pé esquerdo

E o maior exemplo de todos sou eu. Trabalho numa empresa em que preciso passar muito tempo sentada respondendo e-mail atrás de e-mail, atendendo o telefone e planilhando dados. Todo esse tempo sentada causou uma inflamação na junta do fêmur com o quadril, uma bursite. Principal fator? Eu estar de “férias” dos treinos e ter a mania de cruzar as pernas, o que causa mais pressão e sobrecarrega minhas articulações.

A parte mais difícil de uma lesão para um atleta que tem vida dupla: treina-trabalha-estuda; É lidar com os comentários das pessoas ao seu redor que não praticam esportes e não entendem esportes de endurance como o triathlon. Quando surge uma lesão e você conta para as pessoas que não praticam esporte, todos viram médicos especialistas no que você tem, e dizem sempre “É por causa disso ai que você faz, com certeza”.

Pior do que ouvir isso de leigos, já que podemos apenas ignorar – afinal a opinião deles não conta tanto assim, é ouvir isso de médicos. Muitos médicos são extremamente conservadores quando se fala de atividade física, ouvi mais de um médico de mais de uma especialidade, dizer que seres humanos não foram feitos para praticar exercícios, que devemos todos caminhas no máximo 20 minutos, 3x por semana.

Existe um trecho do livro do Doutor Drauzio Varella, que também é corredor e maratonista – parafraseando o que ele diz – os seres humanos não gastam mais energia caçando ou fugindo de predadores, portanto essa energia precisa ser gasta ou problemas de saúde aparecem, desde os mais simples como insônia, onde a maioria dos médicos receita remédios, poderia ser resolvida com uma corrida de 40 minutos, ou os mais graves como obesidade, pressão alta, etc.

Não sou médica, e não leio estudos sobre o assunto, mas quando um médico diz que eu não deveria fazer o que eu amo, o triathlon, eu apenas concordo com a cabeça, saio do seu consultório e nunca mais retorno. Quando comecei a tratar minha bursite, encontrei um ótimo ortopedista que me acompanha e entende do esporte, admira e me passa dicas para evitar que eu tenha problemas futuros e possa fazer o que faço por muitos e muitos anos. Ele não gosta de remédios, acredita que fisioterapia é o melhor caminho, fortalecer o que está fraco. Foi essa fraqueza e a falta de treino que causou minha lesão.

Mas como explicar para os não-atletas que eles não são médicos, e sua lesão foi por ter hábitos sedentários por algumas semanas? Não se explica. Mas a dúvida permanece, se nós atletas que fortalecemos diariamente nossa musculatura e articulações sofremos uma lesão durante atividades de rotina, e as pessoas comuns? Aquelas que se matriculam na academia e pagam fielmente o boleto, mas não acham tempo em suas rotinas para cuidar da saúde.

Atletas notam lesões porque exigem do corpo e tem uma consciência corporal maior que as outras pessoas. Se nós sabemos que uma torção de tornozelo pode vir a ser uma fratura por estresse, pessoas comuns convivem com aquele incomodo, mas nunca chegam a procurar ajuda, afinal foi apenas uma torção e só vai sentir a dor quando correr para atravessar a rua. Mas quanto mais velhos ficamos, mais nosso corpo cobra pela maneira que o tratamos durante a vida. Por isso é muito comum atletas terem no armário diversos tipos de parnafernalhas para massagear, alongar, relaxar e aliviar as dores no corpo

Haviam dias, antes da lesão que eu lutava mentalmente para completar meu treino de corrida, quando você é privado de fazer isso sua perspectiva muda, hoje não vejo a hora de poder calçar o tênis e sair correndo sem sentir dor. É um bom aprendizado, que devemos valorizar o que podemos fazer antes que não consigamos mais ser capazes disso. No momento para evitar impacto estou substituindo as corridas por treinos no Eliptico por exemplo para manter o condicionamento

 

Lesões que ocorrem durante treinamentos ou competições são alertas para a maneira que estamos treinando, precisando de atenção extra a postura, pisada e o quanto estamos exigindo do corpo sem darmos o devido tempo de descanso a ele. Podemos citar também outros fatores que forçam o corpo além do pouco tempo de descanso: peso extra, tênis errado, posição da bike incorreta, remada ineficiente (que faz você querer compensar com força, exigindo mais das articulações dos ombros para manter o mesmo ritmo que uma  técnica eficiente na água te traria).

Os casos acima exigem a atenção do(s) treinador(es), pois algo errado está sendo feito repetidamente ou a falta de treino para o fortalecimento de uma região enfraquecida seja por falta de musculação ou por genética. A maioria das lesões podem ser percebida com alguém que te observa de fora e que tenha sensibilidade de perguntar como se sente, até mesmo o atleta sabe a diferença entre a dor de um músculo fadigado e uma pinçada estranha no nervo.

 

Sempre dizemos que o triathlon é um esporte de estratégia, jogue as rodadas certas e você ganha, mas se ficar “queimando muitas jogadas” – expressão usada pelos ciclistas pro-Tour sobre usar muita força para ir para a frente do pelotão – você irá se prejudicar. Respeito e consciência do corpo são as chaves para o maior desejo do esportista, uma vida plena no esporte, sem lesões.

 




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