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segunda-feira 18 dezembro 2017
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Por que atletas amadores trapaceiam?

Em 2017 sofremos uma bomba no mundo do triathlon com a revelação que Ariane Monticelli foi suspensa por uso de substâncias para melhoria de performance. A apenas alguns dias de do Mundial de Ironman em Kona, sentimos a falta de uma representante feminina largando com os profissionais.

Mas e se nossos olhos estiverem voltados para o lado errado? Ou para a largada errada?

É sabido que após o escândalo de doping no mundo do ciclismo profissional encabeçado por ninguém menos que Lance Armstrong a WADA, agência que fiscaliza e mantém o esporte limpo, ficou mais severa com todos os atletas que competem nas provas que estão sob sua responsabilidade.

Também pudera, Armstrong perdeu um acordo milionário com a Nike, e ainda precisou pagar uma multa agressiva por ter enganado a empresa que era sua maior patrocinadora na época. A WADA apertou o cerco, fazendo com que as grandes marcas que patrocinam ciclismo, atletismo, triathlon, entre outros esportes, respirem um pouco mais aliviadas sabendo que sua empresa não está sendo associada a mais um escândalo de doping.

Mesmo assim, vez ou outra algum profissional é pego no teste e rapidamente desaparece dos holofotes.

Mas e quem está fora dos holofotes? Nos, amadores, que conciliamos nossas vidas normais com o esporte, não temos que realizar exame nenhum, mas também não temos que prestar conta para nenhuma marca que nos patrocina, afinal, não vivemos do esporte certo? Para que trapacearíamos por um hobby?

Com a popularização de esportes como corrida de rua, ciclismo e o triathlon, em conjunto com o crescimentos das redes sociais, o mundo do esporte, antes associado a saúde e bem estar, virou um ringue, e no card principal estão os egos dos participantes.

A boca diz que só faz aquilo para provar pra si mesmo, a postura mostra o contrário. Em esportes de endurance, é difícil se manter motivado 100% do tempo, portanto mirar certas pessoas como forma de manter a chama acesa, e por admiração, é sim saudável, mas até quanto você consegue controlar sua competitividade?

A era que o esporte se tornou mais uma coisa para compartilhar online

A rota comum do amador que trapaceia é: você passa os primeiros anos como um entusiasta, numa curva de melhora grande, e então, essa curva naturalmente começa a estagnar, afinal você é um amador que treina cerca de 10h por semana, com trabalho e família – É ai que os moralmente fracos pensam “Mas e se eu tentar só isso aqui”.

A era digital nos proporcionou aproximação, mas também facilidade na busca de informação. Hoje é possível comprar EPO online, e aprender a aplicar com dicas da internet, a alguns anos atrás essas informações apenas um médico caríssimo revelava por uma grande quantia de dinheiro.

Além do doping sintético, mais casos de doping mecânico vem aparecendo. Com motores escondidos dentro da bicicleta, próximo ao pedivela, se a organização da prova não tiver um leitor de calor, a identificação da ajuda mecânica é bem difícil.

Volte no momento que você fazia o check-in da bike na sua última prova, o que o fiscal olhou? Seus freios, o giro das suas rodas, se o pneu estava cheio, e finalmente, se os números colados na bicicleta eram os mesmos que estavam em você.

Foi essa a inspeção feita no mundial de Ironman 70.3 desse ano, uma prova grande e importante da marca Ironman. E todas as outras provas que já vivenciei, participando ou não, foi a mesma coisa.

Como podemos explicar a motivação para trapacear de um atleta amador?

Sendo pelo troféu, pela necessidade de contar vantagem ou por falta de moral e ética esportiva, um psicólogo do esporte (Steve Portenga), tem outra teoria. O atleta sabe que é errado, porém passa a se preocupar mais com o resultado do que com o processo, então começa uma crise de identidade.

Para definir quem somos, precisamos olhar nossos pilares, como a família, carreira, relacionamentos, e o esporte. Se a maioria desses fatores se encontra bem, então você está bem. Se há um desequilíbrio, você passa a buscar soluções para melhorar algum desses pilares.

É quando você toma as decisões que te levam a um doping, mecânico ou sintético, a trapacear nos resultados do seu Strava, a dividir o seu chip com outra pessoa durante uma prova apesar de não ser um revezamento, ou até mesmo decidir esvaziar o pneu de um adversário.

Quando o trapaceiro se safa, ele vira um trapaceiro recorrente, e continua trapaceando por não estar sendo pego, e por estar recebendo a atenção que quer pelo seu resultado – graças às redes sociais.

Em longo prazo, a melhor forma de evitar a trapaça, é começar um trabalho desde cedo com o atleta – e com crianças – a não focarem no resultado, mas sim no processo. Em curto prazo, a única saída seria a fiscalização entre age groupers também.

Sabemos que uma prova de Ironman tem entorno de 1500 inscritos, seriam muitos testes com muitas margens para erro, mas e se apenas aqueles que ficassem nos pódios de suas respectivas categorias, ou os escolhidos para participar do mundial fossem examinados?

Photo: Lucy Nicholson

Garantir um esporte limpo não é apenas responsabilidade da WADA, e sim de todos nós, mas seria bem melhor dormir sem aquela pulga atrás da orelha.

A reflexão é: de todos os atletas que estão em Kona hoje, e vão estar em outras competições com você, quantos chegaram lá de forma limpa, e quantos ainda não foram pegos?

Clique aqui para ler o relato de Mark Daly, que se tornou um dopado para testar o sistema anti-doping montado para os profissionais.




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