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segunda-feira 18 dezembro 2017
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Preparação para Grandes Desafios – 14Bis

Motivação para ultra maratonas

Todo atleta que treina para longas distâncias já ouviu  e se acostumou a ser chamado de maluco pelos amigos, parentes e colegas por conta de passar tanto tempo treinando, deixando de “aproveitar” as gordices e baladas da vida. Mas mal sabem eles o quanto é incrível para nós que treinamos concluir uma prova tão desejada, ou bater um tempo tão desafiador, e que no nosso ponto de vista quem realmente não está “aproveitando” é o outro lado.
Esses sentimentos de superação são os que nos movem a aumentar distâncias, enxugar tempos e buscar objetivos ainda maiores. Ao atingir, tais objetivos coletamos as insígnias da conquista que sempre nos orgulhamos em falar ou ouvir os outros comentarem, seja pela medalha, pela tatuagem, pela camiseta de finisher ou apenas pelo sentimento pessoal de ser capaz. Mas o que vem depois da maratona ou do Ironman?
Logicamente não é obrigatório buscar alvos mais insanos e muitos já se consideram (e com mérito) satisfeitos, mas sempre tem aqueles que pensam “e agora?”… Bom, e agora você tem dois caminhos, ou repetir e brigar por tempo e classificações… ouuu… ir para as ultra maratonas.
O Ironman já é por si um ultra desafio e eu não vou nem comentar do Ultraman, pois não tenho bagagem, desempenho ou coragem pra cogitar fazer um (ainda).
Mas certamente alguém já comentou nem que fosse brincando de percorrer distâncias longas de uma única modalidade com você e pensou, será que é possível? E depois foi pesquisar e viu que existe uma prova em que as pessoas fazem exatamente o que foi comentado como brincadeira.
E se você se inscrevesse numa destas provas? Só pra completar mesmo, pra ver no “que é que dá”?
A primeira vez que isso aconteceu comigo foi num Carnaval com amigos em Maresias que para voltar para São Paulo depois pegamos um trânsito absurdo na estrada e demoramos 9h para chegar em casa (quase 3x mais do que o tempo normal), e alguém no carro lançar a frase “se eu fosse andando eu chegava antes”, não preciso nem falar que fiquei com aquilo na cabeça e menos de 1 ano depois fiz o Survivor Solo (75km entre Bertioga e Maresias correndo) e essa história logo está aqui no nosso blog
Mas agora em novembro/2016 decidi encarar outra aventura no mundo das ultra maratonas, mas dessa vez um pouco diferente… uma aquática!

Afinidade com natação

De todas as modalidades esportivas que pratico, posso afirmar que a que tenho mais afinidade e pratico a mais tempo é a natação, seja por conta das aulas de natação feitas desde bem pequeno, por sempre ter muito contato com as praias do estado de São Paulo, houve um período em que competia em piscina pelo meu colégio mas acredito que principalmente após iniciar meus treinos de triathlon a aproximadamente 3 anos atrás  sempre busquei evoluir nesta modalidade buscando enfrentar águas abertas nas mais distintas condições para estar preparado para qualquer situação.

Com esta base que criei, acabei tendo curiosidade por longas travessias após ser questionado se tendo já concluído um Ironman, alguns 70.3 e a ultra maratona Bertioga-Maresias, não teria interesse em concluir uma longa prova de natação. Após já ter ouvido falar da prova 14 Bis decidi pesquisar mais a fundo e o formato da prova me interessou; A partir dai bastou um respiro profundo antes de decidir encarar o desafio.

Descrição da Prova

A Maratona Aquática 14 Bis é a maior e mais tradicional prova de seu gênero no Brasil. É conduzida nas (nem sempre) calmas águas do Canal de Bertioga e realizada no mês de novembro e teve sua primeira edição no ano de 1970.

O percurso total da prova possui aproximadamente 24 quilômetros de extensão e tem sua largada  a partir do Forte São João, em Bertioga e a chegada se dá na rampa da Base Aérea de Santos. A prova demonstra ser um desafio para todos os estilos tendo envolvido milhares de nadadores brasileiros e internacionais ao longo de seus mais de quarenta anos de história e configura-se como uma prova de união e de valorização dos ideais esportivos.

Preparação

Uma prova deste tamanho exige uma longa preparação e uma grande parcela de habilidades aquáticas, o que não significa que você seja extremamente rápido, mas sim que se sinta confiante em relação a sua navegação e esteja disposto a passar horas na água sentindo-se seguro e animado apesar do cansaço.
A afinidade com a água eu já trouxe com meu histórico, mas percebi que o momento ideal de fazer a prova era agora pois vinha realizando um grande volume de natação durante a minha preparação para o 70.3 Steelhead apenas 3 meses antes (10.000m a 13.000m semanais), como já estava me sentindo na minha melhor forma na água decidi que seria o momento de encarar o desafio.

4 pontos importantes para a preparação:

1) Durante minha preparação para a 14 Bis, realizei a prova de Triathlon Tri Rex (veja o relato da prova aqui) e por isso mantive os treinos de pedal e corrida de maneira leve para manter o condicionamento apesar de o foco ser a natação.

2) Tinha em mente que eu perderia muito da minha velocidade na água com essa preparação para prova, o que é comum quando você precisa se preparar para ser resistente ao invés de rápido.

3) Para competir no 70.3 Steelhead eu estava com apenas 10% de gordura corporal, a para estrear na maratona aquática precisava de um percentual de gordura bem maior para me ajudar a suportar horas na água com uma temperatura mais baixa (o que aumenta o gasto calórico) e também na flutuabilidade, por tanto aproveitei esse período pra comer tudo de proibido e ganhei logo 5kg (essa foi a parte mais legal).

4) Todo atleta precisa de o acompanhamento de um barqueiro/caiaqueiro para auxílio na nutrição e navegação e garantir que você sobreviva também. Muitos contratam barqueiros locais e os preços podem ir de 300 até 1000 reais dependendo do acompanhamento. Mas eu e a Paula somos um casal que gostamos de enfrentar os desafios juntos e como ela já havia me acompanhado nos 75km do Bertioga-Maresias, fez questão de ser minha barqueira e me acompanhou em todos os treinos de piscina (nadando por alguns períodos comigo), e na represa fazendo meu apoio. Para a prova compramos um caiaque inflável por aproximadamente R$500,00. Nosso modelo é duplo e utilizado para rafting também, foi muito fácil de transportar e inflar, confortável e nos acompanhará por muitos passeios.
Sabia que na prova eu teria 2 grandes desafios: A distancia e a Correnteza. Então ao longo de 3 meses montei uma estratégia de treino em 3 períodos dividida da seguinte maneira.

1 Período: Volume continuo e Força

Esta fase do treino eu encaixei na casa de 5 treinos semanais de 3.000m utilizando muitas séries curtas e intermediárias (até 500m) com palmar e paraquedas, além de incluir 1 treino na semana em piscina de 50m. Nesta etapa meu foco não foi ganhar velocidade mas sim ganhar força para enfrentar a correnteza, e incluir treinos quase que diários para me adaptar a nos últimos treinos da semana já estar “fadigado” e ainda sim fazer força.

Fora a natação fazia 1 treino de musculação por semana, 2 de bike e 2 de corrida e um de transição apenas para manter o condicionamento em ritmo leve-moderado. Abaixo há um exemplo de como foi uma das minhas semanas

2 mês: Aumento de volume e Força

Neste mês reduzi a quantidade de treinos, mas aumentei o volume das series com palmar e paraquedas, e no fim de semana iniciei os treinos longos em piscina de 50m com séries de 8x1000m, 10x1000m, 5x2000m, 4x3000m.

Estes treinos de piscina foram de grande importância para eu entender qual seria a minha necessidade de suplementação e como meu corpo reagiria após longos períodos de natação. Nesta fase dos treinos comecei a perceber dificuldades como a quantidade de assaduras nas dobras e queimaduras solares, ambos solucionados com vaselina sólida e protetores solares em bastão. Percebi também que me surgiram dores musculares nas pontas dos dedos e na junta dos pés com a canela que para reduzir tive que incluir exercícios específicos no dia-a-dia.
Abaixo segue uma exemplo de semana de treino:

3 mês: Treinos Longos Outdoor

Neste período transferi o que foi treinado para as águas abertas. Reduzi a apenas um treino leve a natação durante a semana e foquei apenas no longão do fim de semana. Durante a semana fazia apenas 2000m bem solto na piscina, e no fim de semana fazia um treino na Represa Billings na região do Riacho Grande com distancia de 12.000m (4h00 totais), 15.000m (5h00 totais) e por fim 17.000m (5h30 totais)

Este treinos foram feitos sempre começando no mesmo horário da largada da prova (8h00) e simulando a condição da prova juntamente com a Paula (minha namorada) que foi minha barqueira e também precisava se adaptar a ficar horas sentadas no caiaque e treinar nossa comunicação, alimentação e/hidratação na prova.

Em alguns treinos levei o paraquedas para simular as correntezas contra da prova, mas por coincidência nestes dias ventou tanto que gerou correnteza e até onda na represa. Muitos recomendam treinar no canal, e eu realmente acho uma boa maneira para gerar confiança, mas eu estava me sentindo confiante com os resultados na represa e preferi não ter todo o trabalho e logística de um treino no local da prova.

Na semana anterior a prova como de costume foi polimento e por menos ortodoxo que seja, nos 7 dias antes da prova eu nadei apenas 1000m. As vezes o que funciona para um, não funciona para o outro.

Para ler sobre a prova, clique aqui!




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