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segunda-feira 18 dezembro 2017
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Review – Ironman 70.3 World Championship 2017

Para a maioria dos atletas, ter um bom resultado é 90% de suas metas pessoais. Os outros 10% é o fogo que sentimos quando somos ultrapassados por alguém que não esperávamos que fosse capaz de tal disparate. Além da disciplina, força de vontade, conhecimento pessoal, a competitividade é inerente entre os atletas.

 

 

Foi isso que me fez parar no mundial de meio Ironman.

Minha classificação foi uma grande surpresa, já que uma lesão no quadril me deixou muito lenta e fui para o Ironman 70.3 Palmas apenas para tentar (até eu descer da bike não sabia se iria conseguir) completar a prova.

 

 

 

A Prova

Em alguns números a dimensão dessa prova é: por ano, acontecem mais de 100 provas de meia distância da franquia Ironman no mundo todo. Cerca de 185.000 participantes. Apenas 4500 pessoas classificam para o mundial. São 2,5% dos participantes que tem a oportunidade de participar dessa prova.

 

Local designado para as sacolas da T1

O mar de bicicletas no local da transição da prova feminina

Há alguns anos o mundial de 70.3 é uma prova itinerante, ano passado a prova aconteceu em Queensland, na Austrália. Em 2017, a prova voltou para os Estados Unidos, e foi em Chattanooga, Tennessee que tudo aconteceu.

A Cidade

 

Uma das atrações turísticas de Chattanooga, TN

 

Boas-vindas da cidade aos atletas no aeroporto

 

No interior do Tennessee, com menos de 200 mil habitantes, a cidade já recebeu 10 provas da franquia Ironman. Podemos comparar o clima da cidade a Brotas: cidade do interior, com muitas belezas naturais, e muitas opções para a prática de esportes de aventura.

De toda a semana que passamos na cidade vimos que os habitantes são muito gratos pela prova. Também pudera, são mais de 4000 atletas, chegando para passar pelo menos uma semana, com algo em torno de 2 acompanhantes por atleta.

 

 

 

 

O triathlon é um grande gerador de renda e empregos diretos e indiretos em hotéis, restaurantes, locadoras de veículos, estacionamentos, supermercados, farmácias, entretenimento, suplementação, vestuário (esporte em sua maioria).

 

 

Javier Gomez testando o percurso da bike dias antes de sua vitória

A vista da Cachoeira quase no fim da subida de 5km

No topo da Look Out Mountain

 

A Expo

Toda a estrutura montada pelo Ironman tem o intuito de te fazer gastar mais dinheiro, e ficamos muito felizes em fazê-lo.

A tenda de entrada que você precisa passar obrigatoriamente por dentro para acessar o restante da expo, é a loja oficial da prova, com um sortimento imenso de tudo que você puder imaginar com a estampa Ironman 70.3 World Championship Chattanooga.

As lendas Mark Allen e Dave Scott

 

 

Botas de recuperação muscular da marca Rapid Reboot

A parte boa são os descontos, muitos produtos que normalmente seriam muito caros online ou em lojas físicas (no Brasil e nos EUA), na expo vem acompanhados de um desconto amigável. Aproveitamos a ocasião e adquirimos a bota de recuperação da marca Rapid Reboot (falaremos mais sobre ela no próximo post), e um medidor de potência da Pioneer (também faremos um review sobre ele).

O único gasto sem retorno, foi o valor pago pelo check-up da bicicleta na tenda mecânica do Ironman disponível na expo. Foi cobrado US$89,99 para: apertar os pedais e checar o torque do guidão (já havíamos parafusado levemente antes de ir para a expo), parafusar o câmbio no lugar e uma checagem das marchas.

A bicicleta só foi retirada no dia seguinte devido à demanda de regulagem das bicicletas: a fila era gigantesca durante todos os dias. Retirei a bicicleta no dia seguinte, e testei a bike no percurso da prova – fiz a escalada de 5km da montanha.

Com nenhum problema na bicicleta, o restante do percurso passamos apenas de carro. Mais tarde fui descobrir na desmontagem da bicicleta para colocar de volta na mala, que os pedais e os parafusos do meu guidão estavam da mesma maneira que havíamos colocado, nunca chegaram a ser verificados e apertados apesar de solicitado.

Além de ter gasto um dinheiro sem retorno, com a prova tendo uma longa descida, algo muito grave poderia ter acontecido. Mas não aconteceu, por sorte eu estava cautelosa já que o trajeto de apenas uma volta se afastava muito da área da transição e da cidade. Vi no percurso muitas atletas com problemas mecânicos, muitas inclusive que aparentavam já ter desistido de continuar.

Race Day

 

A altimetria nunca parece ser o que é quando se está no carro não é mesmo? O restante do reconhecimento do percurso nos dias que antecederam a prova, fizemos de carro e parecia ser rolling hills, onde eu conseguiria imprimir velocidade nas descidas, sendo o suficiente para embalar nas subidas.

Estava errada – durante a prova percebi que após a subida da montanha dos 5km e um curto trecho de uma descida, os “rolling hills” eram na verdade descidas muito curtas onde não dava tempo para embalar para subir, e as subidas eram mais longas que o esperado, cada subida era mais uma escalada.

 

 

 

Exceto a descida da montanha de 3km, o percurso todo eram com essas subidas mais longas com baixa inclinação. Já voltando para a cidade, o falso plano e um trecho descampado com um pouco de vento mostrou que o local da prova foi escolhido a dedo: era para ser desafiador.

O fairplay foi presente durante toda a prova, não vi nenhuma mulher se aproveitando do vácuo apesar da pouca fiscalização (a moto dos árbitros passava por nós a cada 30 minutos). Porém, em outra parte da prova, um pelotão foi visto com em torno de 10 mulheres.

A temperatura da cidade durante toda a semana variou entre os 20 e 25 graus Celsius. Apesar de não ser uma temperatura tão alta, já estava praticamente definido que não seria uma natação wetsuit legal, já que a temperatura da água estaria acima dos 24,5C.

No dia anterior da prova, testei o skinsuit da Roka que estava disponível para venda na expo. Tecnologia incrível e confortável, certamente usaria no dia seguinte, já que a água estava quente como numa piscina aquecida. Água muito quente, sem correntes frias nem mesmo no meio do rio.

A correnteza do rio Tennessee é muito forte, como parâmetro, eu nado normalmente para um ritmo 2:00/100m sem problemas. No dia anterior a prova, enquanto testava o percurso, contra a corrente, onde nadaríamos mais de 800m do percurso, nadei para ritmo 3:00/100m.

A favor da corrente (nadaríamos um pouco mais de 300m a favor durante a prova) nadei para 1:08/100m. Na cabeceira do rio há uma usina, que controla boa parte dessa correnteza. Soubemos pela organização que a usina seria desligada durante nossa natação no rio, diminuindo assim a correnteza.

Mesmo com essa notícia, o que mais se ouvia era “Vai poder roupa de borracha?”. Com a medição oficial sendo feita na manhã da prova, veio à notícia que seria permitida. Vestindo minha roupa de borracha, não via à hora de pular na água, minha largada foi as 8:49hrs, o sol já estava bem quente e a roupa era uma tortura.

Com o sistema de largada em ondas aliados de baias com 6 atletas largando a cada 5s pulando da plataforma assim como nas provas de ITU, na minha vez, eis que pulo na água e me surpreendo: estava mais quente que do lado de fora assim como na manhã anterior.

 

 

Toda a natação eu tentava me refrescar abrindo um pouco a roupa para entrar água na esperança que em algum momento água gelada fosse entrar. Não aconteceu.

Posteriormente, no jantar dos campeões, conversei com outros atletas e alguns estavam agradecidos pelo wetsuit legal, outros como eu concordavam que não havia necessidade.

 

 

 

Do lado de fora da água, a temperatura subiu conforme o sol ganhava força. Grande parte do percurso da bike é muito arborizado, portanto fresco. Já na corrida, apenas um pequeno trecho na lateral do rio contava com muita sombra.

A corrida era uma incógnita para mim, já que eu não pude correr nada durante a preparação para o mundial por causa de uma canelite ainda em tratamento. Fiquei feliz em cada passo que dei sem ser incomodada com a dor do impacto.

 

Apesar de uma corrida com sol, não foi o lugar mais quente que já corri (não chega nem perto de Palmas), e depois de algumas provas, a gente aprende que resfriar o corpo o máximo possível é a chave para não sofrer na corrida.

Foi na corrida que senti a mobilização dos moradores e de todos os acompanhantes. Nas casas, a maioria das pessoas estava nas calçadas, incentivando de todas as formas: com placas, palavras, high-fives, banhos de mangueira e MUITA música. Tudo isso tirava um sorriso do rosto de todas as mulheres por mais sem folego que estivéssemos em uma das tantas subidas.

 

 

A suplementação e hidratação em todos os pontos foi riquíssima, apesar de ser “apenas” um Meio Ironman, foi um apoio de full distance: bananas, géis de carboidrato (Gu e Honey Sting), balas mastigáveis da Gu, pretzels, cookies, coca-cola, redbull, água, gelo, Gatorade e o Hot Shot, o produto que tem gosto de pimenta mas promete evitar câimbras.

Apesar de todos nós termos aquele fogo que citei no começo do texto, e a competitividade ser parte de nos, nesse evento, meu mantra que eu dividi com outras mulheres foi: “Você já está aqui, já está entre as melhores do mundo, aproveite”. E era esse clima que você sentia por toda a cidade por dias, a felicidade de estar ali e de compartilhar o amor pelo triathlon.

O trajeto todo da prova foi desafiador, nas três modalidades. Mas justo. São os melhores do mundo sendo testados. Toda a dor, toda a insegurança de estar ali,desaparecem, quando você vê o tapete vermelho. E é ali que fui dividida em duas, eu e todos os outros atletas: metade de nós só quer cruzar aquela linha de chegada e acabar com a dor, abraçar os familiares e chorar um pouco, a outra metade não quer que tudo aquilo acabe.

 

Campeão da prova masculina, Javier Gomez

Campeã da prova feminina, Daniela Ryf

 

 

No dia seguinte, vimos à prova dos homens, podendo ver em carne e osso aqueles que tanto acompanhamos, vimos à dominância de Ben Kanute, o lendário pedal de Sebastian Kienle e a corrida destruidora de Javier Gomez.

 

 

 

 

Devido ao furacão Irma, tivemos nossos voos adiados, e foi passeando pela cidade nos dias após a prova que o vazio no estomago apareceu: as tendas estavam todas desmontadas, as bandeiras dos 91 países representados, que estavam penduradas no píer, já não estavam mais lá. Não se ouvia o tic-tic-tic-tic de rodas de bicicletas girando. A grama onde estava montada a expo estava queimada, marcando onde estavam às tendas, a cidade havia voltado ao seu normal, e os atletas estavam diluídos na população, mas facilmente identificáveis pelo dryfit, viseiras da prova e o andar característico pós-prova, esperando nas filas das atrações turísticas para matar o tempo enquanto o furacão não permitia a abertura dos aeroportos.

Todos querendo voltar para casa, à rotina e a treinar, inclusive eu, para ter a oportunidade de participar de novo no próximo ano

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